
Em 1974, Raul Seixas e Paulo Coelho levaram ao país inteiro uma frase tirada de um livro de magia; meses depois, os dois passaram pelas mãos da repressão.
Vídeo publicado em 14 de outubro de 2026
Em 1974, Raul Seixas e Paulo Coelho lançaram um disco de enorme sucesso, e uma das faixas convidava o público a entrar numa tal de Sociedade Alternativa. Pouco depois, os dois tinham passado pelos órgãos de repressão. Por trás daquela sociedade estava um nome quase desconhecido no Brasil da época: Aleister Crowley. A Ordo Luminis colocou lado a lado o que é documento, o que é relato e o que ninguém sabe.
Quem foi Crowley e o que diz o Livro da Lei
Edward Alexander Crowley nasceu na Inglaterra em 12 de outubro de 1875, numa família rica e religiosa. Segundo as próprias memórias, as Confissões, a mãe o chamava de "a Besta"; adulto, ele assinava "A Grande Besta 666". Estudou em Cambridge, escalou o Himalaia e, em 1898, entrou para a Ordem Hermética da Aurora Dourada.
Em abril de 1904, em lua de mel no Cairo com a esposa, Rose, escreveu em três dias o Liber AL vel Legis, o Livro da Lei. Segundo ele, o texto foi ditado por uma voz que se apresentou como Aiwass. O ditado é alegação de Crowley; o documentado é o livro, a data e a influência que teve. Dali vem a frase "Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei". Para Crowley, não era licença para qualquer coisa: a palavra central é vontade (thelema, em grego), o propósito verdadeiro de cada um. A ideia tinha precedente: em Gargantua (1534), François Rabelais descreveu a Abadia de Thélème, cujo lema era "faze o que quiseres".
O homem mais perverso do mundo
Em 1920, Crowley fundou a Abadia de Thelema em Cefalù, na Sicília. Em fevereiro de 1923, o estudante Raoul Loveday morreu ali; o laudo apontou infecção intestinal. A viúva levou o caso à imprensa, e o semanário John Bull chamou Crowley de "o homem mais perverso do mundo". Em abril de 1923, o governo de Mussolini o expulsou da Itália. Ele morreu em 1947, pobre e quase esquecido. Vinte anos depois, o rosto dele estava na capa de Sgt. Pepper's, dos Beatles, e a contracultura o adotou como rebelde ideal. Essa onda chegou a um Brasil que vivia sob o regime militar.
A Sociedade Alternativa e a ordem de Marcelo Motta
No começo dos anos 1970, Paulo Coelho era um jovem jornalista que escrevia sobre esoterismo; Raul leu, se interessou e foi atrás. Da parceria saiu a Sociedade Alternativa, em que cada um viveria a própria vontade. Em 1974, no disco Gita, a canção "Sociedade Alternativa" levou a frase de Crowley às rádios do país.
E não era só estética. No Rio vivia Marcelo Ramos Motta, thelemita ligado a Karl Germer, um dos sucessores de Crowley, que se apresentava como chefe das ordens crowleyanas no Brasil (em 1985, perdeu nos Estados Unidos a disputa pelos direitos da obra de Crowley, no caso Motta v. Samuel Weiser, Inc.). Segundo O Mago (2008), biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais a partir dos diários dele, Paulo trocou cartas com Motta entre 1973 e 1974, entrou na ordem em janeiro de 1974 e subiu de grau em maio. Raul também entrou. No mesmo livro, Paulo relata uma experiência que descreve como contato com algo maligno, e que o fez se afastar. É testemunho dele; o documentado é o afastamento e, anos depois, a volta ao catolicismo.
Maio de 1974: as três versões
O documento. O Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (2014, vol. 2) registra que Paulo Coelho foi preso na madrugada de 28 de maio de 1974, com a namorada, Adalgisa, passou pelo DOPS e depois foi levado pelo DOI-CODI, do Exército. Segundo documento visto por Fernando Morais e noticiado pelo Jornal do Brasil em 2019, os militares acreditavam que ele militava numa organização comunista, o que não era verdade. A duração da prisão segue desconhecida: o Jornal do Brasil (out. 2019) fala em duas semanas; o relato publicado pelo Global Voices (07/08/2024), em linha com a CNV, indica a soltura por volta de 31 de maio, poucos dias depois.
O relato de Raul. Numa entrevista a André Barbosa, na FM Record, em 1988 (divulgada pelo portal Vermelho em 2014), Raul contou que foi pego no Aterro do Flamengo, encapuzado, que passou três dias num lugar subterrâneo, levou choques e foi colocado num avião para Nova York. É o testemunho dele. A Pesquisa FAPESP (n. 143, 2008) descreve a ida aos Estados Unidos como exílio "voluntário", depois de ameaças.
O ponto mais delicado. Um documento policial do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), revelado no livro de Jotabê Medeiros (2019) e citado pelo Jornal do Brasil, diz que "por intermédio do referido cantor" seria possível chegar a Paulo. O documento existe, mas não prova que Raul entregou o parceiro: não diz se essa intermediação aconteceu. Fernando Morais observa que se passaram 36 dias entre esse papel e a prisão e diz não ter certeza de que se trate de Raul. Paulo Coelho, em 2024, disse apenas que viu o documento. A Ordo não acusa ninguém sem prova.
Os papéis mostram, isso sim, que a Sociedade Alternativa virou caso de polícia. E os órgãos de repressão não pareciam preocupados com Crowley, e sim com a palavra liberdade.
O que Raul levou de Crowley, e o tarot de Thoth
Raul voltou ao Brasil, fez sucesso por mais quinze anos e morreu em 1989. Pelo que está documentado, levou de Crowley a ideia da vontade acima da regra e a coragem de dizê-la sob censura (a Censura Federal já avaliara a música "O Exercício" em 03/04/1973, segundo documento do Arquivo Nacional).
Crowley deixou ainda um legado inesperado: o Tarot de Thoth, pintado por Lady Frieda Harris sob sua direção entre 1938 e 1943 e impresso só em 1969. Na mesma Aurora Dourada esteve seu rival Arthur Edward Waite, que lançou em 1909 o Rider-Waite, o tarot mais popular do mundo.
A pergunta que fica
O que permanece em aberto é o quanto Raul acreditava na parte mágica. A ironia constante dele torna difícil separar o místico do provocador, e talvez ele fosse as duas coisas. E você: Raul acreditava de verdade na magia de Crowley ou estava só provocando?
Assista à investigação completa, com os documentos na tela: youtu.be/krQ8-VSpShw
Livros citados
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- O Livro da Lei, Aleister Crowley
- Os Livros Sagrados de Thelema, Aleister Crowley
- O Mago, Fernando Morais (biografia de Paulo Coelho)
- Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida, Jotabê Medeiros
- Tarot de Thoth, Aleister Crowley e Frieda Harris
Fontes
- CROWLEY, Aleister. Liber AL vel Legis (O Livro da Lei). Cairo, 1904.
- CROWLEY, Aleister. The Confessions of Aleister Crowley (memórias).
- RABELAIS, François. Gargantua, 1534 (a Abadia de Thélème).
- COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Relatório Final, 2014, vol. 2 (prisão de Paulo Coelho em 28/05/1974).
- MORAIS, Fernando. O Mago. São Paulo: Planeta, 2008 (diários de Paulo Coelho; ordem de Marcelo Ramos Motta; prisão de 1974).
- MEDEIROS, Jotabê. Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida. São Paulo: Todavia, 2019 (documento do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro).
- Jornal do Brasil, Caderno B, out. 2019 (reportagem sobre o livro de Jotabê Medeiros e o documento do APERJ).
- Entrevista de Raul Seixas a André Barbosa (FM Record, 1988), citada por Vermelho, 29/08/2014.
- Global Voices, 07/08/2024: depoimento de Paulo Coelho sobre a prisão.
- Motta v. Samuel Weiser, Inc., 768 F.2d 481 (1st Cir. 1985).
- BOSCATO, Luiz Alberto de Lima. Vivendo a Sociedade Alternativa (tese, FFLCH-USP, 2006); Pesquisa FAPESP n. 143, 2008.
- Documento da Censura Federal sobre "O Exercício", 03/04/1973 (Arquivo Nacional).
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